• Jorge Alexandre Moreira

Um dia nos anos 80 - rinhas, assassinato à luz do dia e revolta popular

Você já ouviu falar que os anos 80 foram insanos, mas, se você não estava lá, o mais provável é que não tenha ideia do quanto. Para ilustrar, vou contar uma história do começo de minha adolescência.


Se você espera rir, melhor voltar daqui. Não vai acontecer nada engraçado.

Eu tinha 12 ou 13 anos, o que deve colocar esses eventos por volta de 1986. O bairro era o Flamengo e os nomes serão omitidos, pois várias pessoas ainda estão vivas.


Certa manhã, um conhecido brigador de rua estava passeando com seu cachorro, no Aterro do Flamengo, quando cruzou por um policial civil, que também passeava com seu cão. Os bichos se estranharam e partiram um para cima do outro. Não sei se a coisa aconteceu por acidente ou se os caras deixaram os cachorros brigarem, o fato é que o cachorro do policial levou a pior e ele considerou aquilo uma ofensa grave. Ele foi até em casa - que era ali perto - deixou o cachorro machucado, pegou sua pistola, o filho de dez anos (certamente, para mostrar como se faz) e voltou ao Aterro. Encontrou o cara e, em plena luz do dia, diante de um monte de pessoas, incluindo o filho, matou-o com vários tiros.


A história correu pelo bairro como um rastilho de pólvora. Nas rodinhas pelas ruas, não se falava em outra coisa. Lembre que não havia internet nem celulares, então, se você queria saber o que estava acontecendo, tinha que sair para a rua. Falar com pessoas, encontrar testemunhas, pescar um pedacinho de informação aqui, uma versão nova dos fatos ali.


À medida em que o dia passou, descobriu-se hora e local precisos, raça dos cachorros, modelo da arma. No final da tarde, já se sabia onde morava o policial: em um apartamento de primeiro andar, num prédio perto da curva da Rua Senador Vergueiro.


Lá pelas 7, 8 da noite, o prédio tinha virado o novo ponto turístico do bairro. A calçada estava cheia e eu estava lá, junto com outros moleques. Já correra a notícia de que o policial estava foragido, mas a janela do apartamento estava aberta, as luzes acesas - havia gente em casa.


De repente, surgiram meia dúzia de caras com camisas enroladas nas cabeças - só os olhos à mostra, tipo toucas ninjas. Diante de dezenas de testemunhas, eles cercaram o carro do policial, estacionado quase em frente ao prédio (até então, eu não sabia que aquele era o carro dele). Capotaram-no meio da rua e o arrebentaram. Completaram jogando uma espécie de coquetel molotov para dentro da janela do apartamento. O incêndio não se espalhou, mas quem estava no apartamento precisou fugir, também.


Embora a ação do grupo tenha sido uma surpresa, absolutamente todo mundo sabia quem eram os caras, camisas na cabeça ou não. Não era bandidagem, nem policiais. Eram caras comuns que moravam naqueles prédios e que tinham comprado uma briga daquele calibre para vingar o amigo morto.


Um último detalhe mórbido dessa história insana: é interessante como os caminhos de pessoas extremamente violentas costumam se cruzar. O morto não era nenhum santo. Um amigo me contou sobre uma briga que assistiu dele com outro sujeito. O agora morto, depois de bater no cara, arrancou pedaços de seu rosto com os dentes.


Depois, com a boca cheia de sangue, entrou numa padaria em frente, para palitá-los.


Eu avisei que era louco e que não era engraçado.

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