• Jorge Alexandre Moreira

Histórias Reais de Tropas Especiais (parte 2)

Segundo post da série sobre incidentes reais que presenciei ou me foram relatados durante meu tempo como militar. Em "Hola", bastidores de uma operação de retaliação contra guerrilheiros das FARC, na década de 90. Em "Gomes, Brasil", a história de um militar brasileiro, observador da ONU, capturado na Guerra da Bósnia.


HOLA


Um incidente ocorrido na Amazônia em uma terça-feira de fevereiro de 1991 deixaria o país em polvorosa por semanas: 40 guerrilheiros das FARC invadiram o território brasileiro na região do Rio Traíra, próximo da fronteira com a Colômbia, e atacaram covardemente um posto avançado do Exército onde havia um grupamento com 17 militares brasileiros. O ataque de surpresa, que ocorreu na hora do almoço e sem nenhum conflito prévio, matou três militares e feriu nove. Os guerrilheiros também inutilizaram rádios e roubaram munição, medicamentos e todo o armamento.


As dificuldades de comunicação eram comuns na área e o Exército só tomou conhecimento de tudo dias depois, quando chegaram os militares que substituiriam o turno. A resposta rápida e avassaladora viria a ganhar o nome de "Operação Traíra", em referência ao rio onde o incidente ocorrera.


Agora, esse nome, Operação Traíra, pede uma rápida reflexão. Você sabe como nossas forças de segurança são imaginativas e rocambolescas, quando o assunto é dar nome a operações. Fazem jogos de palavras, buscam inspiração em antigas guerras e incidentes históricos obscuros, que quase ninguém conhece. Quando alguém dá um nome tão simples a uma coisa tão séria, é porque esse alguém não está a fim de conversa fiada. Saia do caminho dele.

Dias depois do ataque, tropas de Forças Especiais e de guerra na selva, com apoio de helicópteros e aviões da Marinha e da FAB, invadiram a região. Estabeleceram-se na floresta e ficaram lá semanas, fazendo coisas de forças especiais, como infiltrar-se além da fronteira, fazer reconhecimento, patrulhar, explodir coisas e matar pessoas.

Pouco disso chegou aos jornais. Embora a operação tenha sido destaque na mídia por semanas e mobilizado a opinião pública como uma espécie de Taça Libertadores da América da Amazônia, as notícias só mostravam os militares patrulhando os rios em lanchas, descendo de helicópteros e gritando "Selva". Os registros falaram em 12 guerrilheiros mortos, 150 feridos e alguns desaparecidos. Seja generoso no "alguns". O solo e os rios amazônicos são ávidos. Sumir com gente é fácil que você não imagina.


Nessa época, eu já estava no Exército, e alguns de meus amigos tinham parentes em quartéis de selva ou no Batalhão de Forças Especiais. As notícias de boca chegavam.


"O BFEsp tá vazio. Tá todo mundo no Traíra."


"Os caras tão matando muita gente."


Mas a história mais interessante que ouvi, relacionada a esse incidente, aconteceu algum tempo depois, quando a mídia já tinha esquecido o assunto. A região estava supostamente "pacificada", mas ainda havia muita tensão no ar. Um grande amigo, hoje falecido, que serviu por anos na Amazônia, contou que certo dia, uma lancha com militares brasileiros estava patrulhando o rio quando veio, em sentido contrário, uma lancha com uns dez colombianos. O Traíra marca exatamente a fronteira, então, a princípio, ninguém está errado, apenas por estar ali. Mas os ânimos estavam exaltados, as pessoas tensas. Quando as lanchas cruzaram, os brasileiros tinham todos os fuzis apontados para os colombianos, por precaução.


Mas um colombiano ergueu o braço e cumprimentou:


- Hola.


Um soldado novato se assustou e atirou. E o resto do pessoal se assustou e atirou, também, matando todos na lancha colombiana.

Não sei se essa história tem alguma moral. Se eu tivesse que chutar alguma, seria "em certas situações, apenas feche a porra da boca".


GOMES, BRASIL


No começo da década de 90, a Europa foi assolada por um dos confrontos mais brutais e desumanos do período pós 2ª Guerra Mundial. A Guerra da Bósnia foi um conflito complexo, com vários lados, cada um com seus próprios ressentimentos históricos, raciais e religiosos.

Estupros em massa foram usados pelos sérvios como arma de guerra, para humilhar e apavorar a população civil, além de promover limpeza étnica, já que as mulheres bósnias muçulmanas eram estupradas repetidamente pelos sérvios até engravidarem e então detidas por meses até que o aborto se tornasse impossível. Enfim, daqueles momentos da humanidade em que chegamos à conclusão de não merecemos um meteoro. É bom demais para nós.


O Brasil enviou observadores militares, que trabalhavam em conjunto com a ONU. Foi uma guerra particularmente difícil para eles. Os observadores foram atacados, bombardeados, mortos e, muitas vezes, feitos de reféns. Na AMAN era relativamente comum termos palestras com militares que retornavam desse tipo de missão. Assisti uma palestra com um Major que, aqui, chamaremos de Gomes.

Biblioteca Nacional de Sarajevo


Ele estava em um jipe com outros dois militares de outros países. Os três ficavam revezando a posição de motorista de tempos em tempos. O Major Gomes tinha acabado de sentar no volante e estava dirigindo quando o carro passou em cima de uma mina, detonando-a.


Esse carro, por ser projetado para ser leve, tinha blindagem apenas sob o assento do motorista. Gomes foi o único que sobreviveu e ele não falava uma palavra de nenhuma das línguas utilizadas no teatro de operações. Ao ser capturado pelos sérvios, ele só conseguia repetir, mãos erguidas no ar:


"Gomes, Brasil. Gomes, Brasil".


Quando conseguiram alguém que falasse inglês, perguntaram-lhe primeiro sobre operações militares. Depois, sobre carnaval e futebol. Foi libertado algumas semanas depois, sem grandes traumas.

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E confira a Parte 1 dessa série.

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