• Jorge Alexandre Moreira

Histórias Reais de Tropas Especiais (parte 1)

Uma característica essencial para o escritor é ter olhos e ouvidos abertos, gostar de pessoas e de histórias. Um de seus principais trabalhos é pegar o que ele viu, o que lhe contaram e o que ele imaginou e misturar tudo, de forma que o leitor não saiba o que é uma coisa e o que é outra. Esse é o primeiro post da série "Humanos de Outro Planeta", sobre relatos incríveis de pessoas incríveis.


Foto de Manoel Kipissy, fotógrafo militar.


Fui militar por quase seis anos e militares passam por várias regiões do Brasil, algumas delas tão distintas que poderiam ser países diferentes. Os relatos dessas experiências são trocados em muitas horas de conversas, o que faz com que o militar típico seja um poço de contos e causos que vão hilário ao inacreditável.


Hoje e no próximo domingo, compartilharei algumas histórias sinistras que conheci durante meu tempo como militar.


O EBOLA AMAZÔNICO


Não sei como as coisas são hoje, mas, em 1992, quando cursei o primeiro ano da Academia Militar das Agulhas Negras, trote era coisa séria. Os veteranos invadiam nossos apartamentos de madrugada, pelas portas e janelas, vestidos em uniformes camuflados, berrando, apitando e colocando os "bichos" (cadetes de 1º ano), para fazer flexões, correr para lá e para cá, cumprir tarefas malucas, gritar merdas, enfim, trote.


Na maioria das vezes, a coisa era engraçada para quem tomava o trote, também, mas nem sempre. Não é difícil de imaginar que um ambiente desses seja terreno fértil para alguém que queira humilhar seu semelhante sem sofrer consequências. De fato, há pessoas que humilharão qualquer semelhante sempre que tenham oportunidade e algumas dessas pessoas, claro, encontram a realização de seus sonhos molhados no ambiente militar. O sujeito sobre o qual falarei estava nessa categoria. Mudarei seu sobrenome apenas porque falarei muito mal dele - sem remorso algum.


Silas estava no 4º ano, quando entrei na AMAN, e nunca conheci ninguém dos anos mais novos que não o odiasse. Ele transpirava arrogância por todos os poros. Dirigia-se aos cadetes de anos inferiores como quem fala com insetos. Tinha aquele olhar meio repulsa, meio incredulidade que é tão típico do narcisista sádico.


Havia uma questão de ódio regional envolvido também. Fossem outros tempos, eu lhe diria de onde Silas vinha e que região ele odiava, mas a internet é um lugar confuso e não quero transformar esse post numa discussão sobre bairrismo. Direi apenas que Silas tinha um ódio particular com pessoas que vinham de uma determinada região do Brasil, na qual aquele que vos fala se enquadrava, e ele fazia questão de deixar isso claro sempre que tinha oportunidade.


Mas como os cadetes costumam dizer, quando as coisas estão difíceis, nada detém a inexorável marcha do tempo. 1992 acabou, Silas se formou e foi embora. Para a Amazônia. Adeus.

A vida passou. O ano era 1995 e há muito eu não tinha - nem queria ter - nenhuma notícia dele. Nessa época, os jornais eram de papel e saíam uma vez por dia. A notícia chegou a nós, pela Rádio Corredor, antes de ser notícia:


- Cara, você não vai acreditar. Lembra do Silas?


- Aquele filho da puta de infantaria?


- Ele mesmo.


- O que que tem?


- Morreu.


Minhas pupilas dilataram. Talvez os cantos de minha boca tenham até se repuxado para cima.


- Como?


- Pegou uma doença na selva e morreu em três dias, sangrando por tudo quanto foi buraco no corpo.


- Que porra de doença é essa?


- Ninguém sabe. Alguma coisa da Amazônia que ninguém nunca viu. Tipo um Ebola.


Durante os dias que se passaram, o incidente foi assunto constante, por vários motivos. Uma doença desconhecida havia matado um militar saudável em três dias. Isso havia acontecido em nosso país. E o militar era o Silas.


Os cadetes que agora estavam no 4º ano, que tinham tido contato com o digníssimo quando estavam no 1º, costumavam abrir a conversa com algo do tipo "Sabe quem se fodeu?"

A última notícia que tivemos era que o corpo do Silas havia sido queimado e fim da história. Tenho certeza que havia, em algum lugar, pessoas que gostavam dele e que lamentaram sua morte. Talvez ainda haja. Não conheci nenhuma.


Uma última observação sobre esse incidente, relacionada ao momento atual que vivemos, é que vários cientistas já avisaram que a Amazônia é repleta de vírus desconhecidos e que o próximo surto de uma doença misteriosa pode vir de lá.


Bons sonhos.


CUIDADO NO CAMINHO


Essa história não aconteceu na Amazônia, mas em um pequeno país da América Central marcado por turbulências políticas, guerrilhas e golpes de estado. Ela está, na íntegra, em meu livro Escuridão, e é contada casualmente por um dos personagens, durante uma parada para descanso. Eu a escutei de um militar de Forças Especiais com quem tive instrução e que esteve nesse pequeno país, em uma missão internacional. Ele queria falar sobre como os sentidos de um homem ficam aguçados, depois de algum tempo embrenhado na selva.



Ele estava na floresta há dias, com uma patrulha de militares de vários países, em uma rota usada por guerrilheiros, esperando-os passar.


Se você não sabe como funciona uma emboscada militar, cabe aqui uma rápida explicação. A versão mais simples é uma fileira de homens camuflados no mato, lado a lado, com suas armas apontadas para um caminho pelo qual o inimigo passará. Quando todos os inimigos estão dentro de um perímetro que se chama de "zona de matar" ou "área de destruição", todos abrem fogo. Tudo na emboscada - da escolha do local à disposição dos homens - é pensado para não permitir sobreviventes e, de fato, é muito difícil sobreviver a uma emboscada bem montada. A melhor defesa, portanto, é não entrar nela. Essa é uma lição de vida importante, também.


Estavam lá os homens no mato há sabe se lá quantos dias quando apareceu a coluna de guerrilheiros. O primeiro homem de uma coluna é chamado de esclarecedor e ele vai bem à frente do resto. Sua função é identificar eventuais armadilhas antes que a tropa entre neles e, em casos mais extremos, morrer para que os outros não morram.


Pois o esclarecedor da coluna parou e fez um gesto para que todos atrás dele parassem. Ficou um tempo olhando a selva adiante, então voltou até os homens, que confabularam um pouco e mudaram a rota, desviando do local da emboscada.


Os homens ficaram atônitos, mas não moveram um músculo. Esperaram os inimigos sumirem, então tomaram outro caminho, foram mais rápido e montaram nova emboscada, mais à frente.


Dessa vez, funcionou. Os guerrilheiros entraram na área de destruição e foram executados sem chance de reação. Alguns foram capturados vivos, entre eles, o esclarecedor, que foi interrogado com muita curiosidade. Os combatentes queriam saber o que ele tinha visto que o fizera voltar e pegar outro caminho.


Ele tinha sentido cheiro de loção pós-barba.


A quase cinquenta metros de distância.

Gostou? No próximo post, nesse domingo, você vai conhecer histórias por trás do incidente em que guerrilheiros das FARC atacaram e mataram militares brasileiros na Amazônia.

E nem todo o horror na Amazônia vem das pessoas. Aqui, você encontra a história de um ser monstruoso que é temido por índios e caçadores há séculos.

Misturando lendas amazônicas e operações militares, Escuridão é um livro de terror que se passa na Amazônia, com um conflito entre Brasil e EUA como pano de fundo. Saiba mais aqui.

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