Em uma região remota da Amazônia, um mal milenar despertou.

    O Tenente Clayton Boddicker levantou os olhos do jato amarelo de urina que formava uma poça à sua frente. A patrulha seguia pela mata, indiferente à sua parada estratégica.

    Ele olhou de volta para o pênis, subitamente inquieto. O órgão não parecia ter a menor intenção de interromper suas atividades excretórias e o último homem da fila já estava sumindo em meio à penumbra.  

    Estava nos Boinas Verdes há sete anos. Ao bel-prazer do governo de seu país, fora atirado no meio do fogo cruzado em uma infinidade de infernos tropicais como aquele. Passara quinze meses nas matas panamenhas, dormindo em redes, e até mesmo fora a Manaus, cursar um estágio para estrangeiros do melhor curso de guerra na selva do mundo – o CIGS. Completara este último com êxito, embora tivesse certeza de que os brasileiros guardavam alguns truques sujos só para eles.

    Mas dessa vez, aquela merda de floresta estava consumindo-lhe os nervos como um cachorro que rói um osso de borracha.

    Primeiro, aquela escuridão sinistra, embotando qualquer noção de tempo. Uma eternidade caminhando pelo terreno acidentado poderia ter durado quinze minutos, enquanto um descanso, no qual se fazia pouco além de tirar a mochila das costas e sentar, consumia meia hora. Depois, aqueles sons estranhos – sussurros, risos, ou qualquer porra que fosse – ao longo da noite inteira (a noite de verdade, na qual não dava para enxergar a própria mão estendida diante do rosto). Que tipo de animal fazia aquele barulho? Ninguém no grupo jamais ouvira nada parecido e aqueles soldados já haviam estado em tudo quanto era fim de mundo verde para o qual o ser humano dera algum nome.

      Ali, eles eram alienígenas em seu próprio planeta.

    Boddicker sacudiu o pênis nervosamente, em sua pressa guardando-o na calça antes do fluxo terminar. Sua cueca molhou-se e, embora não tivesse tanta importância, o tenente resmungou um palavrão. A floresta era como uma gigantesca estufa. As roupas, as armas, as meias, tudo estava molhado após algumas horas.

     Ele procurava a patrulha com o olhar quando a sensação voltou.

    Na noite anterior, durante seu turno de sentinela, tivera a certeza de estar sendo observado. Não foi a paranoia comum de se estar em um ambiente hostil e desconhecido, mas a nítida sensação de fixar um ponto nas sombras e saber que há um olhar lhe encarando de volta, embora não se consiga ver nada.

    Lógico que não comentara nada com ninguém. O que diriam, se ele começasse a se comportar como uma colegial num acampamento de final de semana?

    Mas agora o sentimento estava de volta, mais perceptível que o da umidade em sua roupa de baixo.


    Com uma excitação quase elétrica eriçando-lhe os cabelos da nuca, o tenente apoiou a coronha do fuzil no ombro e girou em torno de si mesmo. O cano apontava para a frente, o indicador acariciava o gatilho escorregadio de suor.

    Ele voltou o rosto para cima, esquadrinhando os galhos das árvores. Nem um facho de luz sequer penetrava o denso telhado de folhas. Com a outra mão, sem abaixar o fuzil, colocou os visores noturnos sobre os olhos. A escuridão tornou-se o mundo verde-pálido da visão infravermelha.

    Folhas agitando-se ao vento. Um cipó balançando preguiçosamente. Um pássaro levantou voo e seu dedo contraiu-se em um reflexo, quase disparando acidentalmente. Ele engoliu uma bocada cheia de saliva densa, pastosa, e notou que, subitamente, estava com muita sede.

    Sentiu um cheiro forte, semelhante ao que impregnava o banheiro da escola depois que a faxineira o limpava com amoníaco. Veio-lhe um desejo avassalador pelos cigarros que abandonara há quatro anos e ele percebeu que estava fazendo uma associação com o odor do banheiro, que era obrigado a suportar para fumar escondido nos reservados. Ele soltou uma risadinha nervosa, dizendo a si mesmo que o funcionamento do cérebro era uma coisa muito estranha, e perguntou-se se não estaria ficando maluco.

       Ele não estava ficando maluco.

    Foi o som de sua própria risadinha que abafou o ruído quase inaudível de folhas sendo pisadas que veio pelas suas costas. O tenente nunca viu o que o atacou.

   Garras afiadas como navalhas penetraram a parte baixa de suas costas, atravessando a musculatura da região lombar como faca passando por um pudim. Ele caiu de joelhos, um rim reduzido a pedaços, todos os órgãos de seu corpo subitamente esquecidos de suas obrigações. Sua bexiga e esfíncter encheram suas calças e a arma escorregou de suas mãos como se seus dedos tivessem virado água. Nem uma tentativa de grito de dor chegou a concretizar-se. Os dentes trincaram-se com tanta força que estalaram em suas cavidades, e o ar em seus pulmões escapou por entre eles na forma de um suspiro abafado.

    A Coisa fechou a mão em torno de algo sólido e escorregadio no interior do abdômen de Clayton Boddicker, impedindo que seu corpo fosse ao chão. Uma golfada de sangue quase negro jorrou de sua boca, escorrendo pelo queixo e caindo para o chão em gotas pastosas.

    O corpo, piedosamente desacordado, mas ainda vivo, foi jogado por sobre um ombro como um saco de serragem. A Coisa saltou para o alto, as unhas sujas de sangue e terra cravando-se no tronco lenhoso de uma árvore. Um ruído obsceno de sucção, como o de um convidado grosseiro chupando um osso de galinha em um jantar, foi encoberto pelo canto estridente de um bando de araras.

Claustrofóbico.

Inquietante.

Surpreendente até a última página.

.

CONTATO

Entrevistas, parcerias, opiniões, xingamentos:

Siga-me:

  • Facebook ícone social
  • Instagram ícone social

CONTATO

Entrevistas, parcerias, opiniões, xingamentos:

Siga-me:

  • Facebook ícone social
  • Instagram ícone social