Altitude de Cruzeiro

Um Conto de Jorge Alexandre Moreira

São 3 da madrugada e Marinho está a 11000m sobre o Atlântico, no voo 7024, de Guarulhos para Lisboa. Ele tem um livro no colo que não consegue ler e está ao lado de uma estranha criança, esperta demais para sua idade.

Há muito de estranho sobre o voo 7024, mas o pior é que o avião já está no ar há 5 horas e Marinho nunca viu aquela criança antes.

                    — O que será que acontece com as pessoas que morrem no mar? – perguntou o garoto, olhando para fora, pela janela do avião.

                    Marinho levantou os olhos de seu livro, aborrecido, e voltou-se na direção da voz – sempre que a leitura começava a absorvê-lo, algo o puxava para fora, outra vez. O menino estava à esquerda, a uma poltrona vazia de distância, rosto colado na janela. Marinho estudou longamente a parte de trás de sua cabeça, perguntando-se o que haveria de tão interessante, lá fora. Eram 03:03 da madrugada e estavam onze quilômetros acima do Atlântico, sob um céu sem lua.

                    — Que que você olha tanto?

                    O garoto virou-se para Marinho – rosto marrom escuro como chocolate amar-go; olhos grandes, profundos. Era daquelas crianças que já nascem com cara de adultas.

                    — Nada – Marinho estimou sua idade em uns dez anos. – O que acontece com elas? – insistiu.

                    Marinho acreditava que absolutamente nada acontecia com quem morria, inde-pendentemente do lugar do evento, mas não disse isso. Seria cruel demais, até para seu coração duro de advogado corporativo.

                    — Tem medo de andar de avião?

                    — Você é que nem meu pai.

                    — Como é seu pai?

                    — Sempre responde com outra pergunta.

                    Marinho encarou-o, intrigado.

                    — Sou advogado – disse, como se isso explicasse tudo. – Tem medo?

                    — Mais ou menos.

                    — Pois pode ficar tranquilo. Esse é um 747 novo em folha, estamos a salvo.

                    — Meu pai fala que andar de carro é muito mais perigoso. Ainda mais, se for com minha mãe.

                    Marinho riu.

                    — Cadê seus pais?

                    — Não vieram.

                    — E você está com quem?

                    — Ninguém.

                    As sobrancelhas de Marinho se ergueram.

                    — Minha Tia Vera vai me pegar no aeroporto.

                    — É uma viagem grande, para um cara da sua idade fazer sozinho.

                    — Eu sou esperto – disse, como quem informa as horas. – E tenho autorização. Uma Autorização de Viagem Para o Exterior de Menor Desacompanhado.

                    — Uau! Vou te dar meu cartão. Me liga daqui a uns anos que terei um emprego pra você.

                    — Tá bom – respondeu, sério.

                    Rindo, Marinho estendeu a mão por sobre o assento vazio.

                    — Marinho.

                    — Alberto.

                    O aperto da pequena mão era firme, adulto como o nome.

                    — Mas, Alberto, por que seus...

                    Parou, boca entreaberta. O voo 7024 da LAP decolara de Guarulhos, rumo a Lisboa, às 22. Tudo bem que Marinho não era o tipo de pessoa de conversar com o passageiro do lado, mas era impossível que estivesse há cinco horas ao lado de uma criança desacompanhada e não a houvesse notado.

                    — O que foi?

                    — Não lembro de termos falado.

                    Alberto encolheu os ombros. Marinho ficou olhando-o, sem saber o que pensar.

   

                    — Por que seus pais não vieram?

                  — As férias do meu pai nunca são junto com as minhas. E minha mãe só vai on-de ele vai – encolheu os ombros, sorriso magro, olhar triste. Sabia que estava sendo jogado para escanteio.

                   É, garoto, ser esperto tem suas desvantagens. Melhor se acostumar.

                    Marinho correu olhos pelo avião – às escuras, à exceção de uma ou outra luz de leitura. No final do corredor, o aviso luminoso dos sanitários, com dois bonecos, lado a lado, estava vermelho. Marinho queria ir, mas podia segurar um pouco mais. Alberto olhava pela janela, outra vez. Parecia menor, recostado na grande poltrona, as mãos caídas sobre as pernas.

                    — Sua tia mora em Lisboa?

                    — Tem dois anos – disse, sem se virar.

                    Aquelas palavras, aquele olhar entediado. O livro no colo. O ar condicionado na pele. A pressão na bexiga.

                    — Tá todo mundo indo pra Portugal - Marinho disse, de repente, e perguntou-se por quê. Não parecia uma frase sua. Mas viera, automática, como a fala de um ator, em uma peça há anos em cartaz.

                    Marinho engoliu saliva densa. A expressão de Alberto – percebia, agora – não era tédio, mas uma mistura de angústia e resignação. A expressão de uma criança voltando à casa para onde tem que ir, para um castigo que não pode evitar.

 

                    A sensação de estranheza tornou-se um medo vago, opressivo. Sem razão de ser e, por isso mesmo, mais apavorante. Não queria mais falar com Alberto. Algo nele e naquela conversa estava muito errado e não tinha a menor vontade de descobrir o que era.

                    Agora, queria mesmo urinar, mas o aviso luminoso do banheiro continuava a dizer que não. Resolveu voltar ao livro que não largava, mas no qual não conseguia avançar. Bastava começar a ler que algo o chamava – o garoto falando, sua bexiga, uma turbulência, uma memória conjurada por uma palavra. Tinha-o aberto no colo, na página 48, há sabe-se lá quanto tempo. Baixou os olhos e foi ao começo da página. Não lembrava onde havia parado.

                    “— Tive outras oportunidades – disse Osokin – mas elas me escaparam uma após a outra. É terrível que sem conhecimento ou intenção, possamos fazer coisas que afetem toda nossa vida e mudem todo o nosso futuro! O que fiz no colegial foi uma brincadeira. Se soubesse a que me levaria, pensa que eu o teria feito?

                    O ancião concorda com a cabeça.

                    — Sim, você teria feito.

                    — Nunca!

                    O ancião ri.”

                    Garganta apertada, respiração curta, forçou-se a continuar.

                    “O ancião diz, olhando para Osokin:

                    — Um homem pode não saber o que ocorrerá como resultado das ações dos outros ou de causas desconhecidas. Mas ele sempre conhece os resultados possíveis de suas próprias ações.

                    — Às vezes, se pode prever os resultados, mas não é regra... além disso, sempre encarei a vida de um modo bem diferente dos demais.

                    O mago sorri.

                    — Ainda não encontrei um homem que não estivesse convencido de que encarava sua vida de um modo bem diferente dos demais.”

                 Marinho olhou para a frente, rosto torto em uma careta de desgosto, mão es-palmada sobre as páginas abertas. Que porra aquilo queria dizer? E o que estava fazendo com um livro daqueles? Destino inescapável? Magos? Dizer que não era seu tipo de leitura seria uma forma muito branda de colocar – não era o tipo de coisa que o atrairia nem se fosse sua única opção, em uma ilha deserta.

                        Fechou o velho livro. Analisou a capa desbotada e desinteressante, de cores feias.

                    “A Estranha Vida de Ivan Osokin”, de um russo chamado Ouspensky. Um conto incômodo e claustrofóbico sobre ter novas chances e cometer os mesmos erros. Tentou lembrar como o conseguira, mas não lhe veio nada, o que era ainda mais estranho – Marinho tinha uma memória prodigiosa, motivo de vaidade e trunfo profissional.

                    Com esforço, pescou uma lembrança vaga, nebulosa. Havia visitado a irmã, em Pinheiros, antes de ir para o aeroporto. Na saída, catara um livro qualquer na estante. Fazia sentido, parecia o tipo de livro do qual haveria vários, na estante de Sara.

                    Exceto que essa não era uma lembrança de verdade. Não tinha imagens, frag-mentos de diálogos ou emoções. Era uma ideia, apenas, sem cor ou substância. Como algo que lhe dizem que você fez, na manhã seguinte a uma bebedeira, mas de que você não tem nenhuma real recordação.

                  Escritor desconhecido, editora da qual nunca ouvira falar. O advogado fo-lheou as páginas encardidas. O que, naquilo, o motivara?

                     Talvez, quisesse um livro fino, para ler de uma tacada só. Talvez, tivesse esco-lhido uma obra de ficção qualquer, por estar farto de sua indigesta realidade de conchavos com juízes, demissões em massa, acordos imorais.

                    Mais ideias. Tentativas débeis de encher o vazio inexplicável com lógica ca-penga.

                    E o livro nem era a questão principal. 

                  A questão principal, que ele tanto evitava, era não ser possível que estivesse há horas na mesma fileira de Alberto, o Garoto Esperto, e não tivesse lhe dirigido a palavra.

                    Marinho respirou fundo, olhou para a esquerda. Na hora, se arrependeu.

                    O garoto olhava pela janela, todo retesado, mãozinhas crispadas nos braços da poltrona. Lá de fora, vinha um inexplicável brilho azulado. Uma luz gélida, desesperançosa, que refletia em seu rosto orvalhado de suor frio, em seu tremulante lábio inferior, na lágrima que rolou de um olho, bochecha abaixo.

                    Marinho voltou-se para o corredor do avião como se tivesse levado um tapa – um punho comprimido contra os dentes, entranhas encolhidas em um nó.

                    Algo estranho

                    horrível

              estava acontecendo. Havia uma criança apavorada a seu lado. Marinho deveria segurar sua mão, chamar uma comissária – qualquer coisa de adulto – mas só de pensar em olhar para ele já sentia o ventre encolher-se mais. Falar com ele era inconcebível.

                    E a luz? Que porra de luz...

                   Marinho pôs-se de pé com um pulo, batendo com os joelhos na poltrona da frente. O livro caiu e ele nem se importou – partiu na direção do banheiro. Que porra aquele ou aquela filha da puta estava fazendo lá dentro há tanto tempo? Cagando? Se masturbando? Cheirando? Estava morto, caralho? Marinho não sabia se iria mijar ou vomitar, só sabia que não ia fazer no corredor. Colocaria a porta abaixo se preciso...

                    BLIN!

                    Os avisos de apertar cintos acenderam.

                    Marinho estacou, segurando-se em uma poltrona de cada lado do corredor. Pelos alto falantes, veio uma voz de homem, com forte sotaque português:

                    — S’nhores p’ss’geiros, estam’s entrando em uma zona de turb’lência! Retor-nem a seus assent’s im’diatament’ e m’ntenham os cintos afiv’lados!

                    A urgência não dava margem a dúvidas, mas a bexiga de Marinho pesava. Ele deu um passo tímido à frente, como uma criança fazendo algo que sabe ser errado. Uma comissária gritou, lá do fim do corredor:

                    — S’nhor! Volt’ agora a seu lugar!

                    Marinho engoliu em seco, o medo como uma mão gelada envolvendo-lhe os testículos. Algo estava muito errado. Ele já passara por um sem número de turbulências. Pilotos e comissárias não falavam daquele jeito.

                    Talvez, falem, dependendo do problema.

                  Ele virou-se, atônito, baixo ventre queimando. Voltou pelo corredor, arrastan-do os pés. Luz azul entrava pelas janelas de ambos os lados – densa, pestilenta como radiação. Espalhava-se pela cabine feito uma doença, dava contorno às sombras, mostrava coisas que não queria se ver.

                    O avião estava vazio, Marinho percebeu. A maioria eram poltronas vagas. Uns gatos pingados, aqui e ali.

                    Marinho sentou, o avião já sacudindo, e fechou a fivela do cinto. Pensou melhor e apertou-o, ignorando o reclamar da bexiga. Olhou de esguelha para o lado e se deparou com Alberto banhado em luz azul – olhos fechados, expressão resignada, faces lavadas em lágrimas. Parecia um santo.

                    Marinho voltou-se para a tela apagada nas costas da poltrona à sua frente e percebeu, com horror, que chorava, também.

                    O trepidar do avião aumentava, diminuía, aumentava, diminuía, até que aumentou e não diminuiu mais. Houve um solavanco, como se tivessem caído em um buraco, e alguém gritou. Pelos alto falantes, o piloto berrou algo que Marinho não conseguiu entender e o avião fez uma curva impossível para a direita, como um brinquedo de parque de diversões. Compartimentos de bagagem abriram, malas caíram e, agora, havia gritos por toda a parte.

                    Marinho sentiu um vácuo abrindo em seu abdome – suas entranhas perdendo o peso. Seu corpo quis subir, mas ficou preso ao assento pelo cinto. Não era turbulência, nem solavanco, dessa vez. A mágica que levava gigantescos cilindros de metal com centenas de pessoas através dos céus havia falhado. Estavam mergulhando na escuridão.

                    Do teto, máscaras de oxigênio caíram, penduradas por mangueirinhas transparentes. Marinho agarrou a sua e lembrou que só se devia ajudar crianças depois de colocar sua própria máscara (ótimo, pois nada diferente passara por sua cabeça, nem por um segundo sequer).

                    Dá teu jeito, Alberto. Aqui é assim.

                    Ele colocou máscara sobre nariz e boca, passou o elástico atrás da cabeça e inspirou, olhos arregalados. Oxigênio puro inundou-lhe os pulmões. Cores saltaram, ruídos abafaram. Em sua mente, palavras esticaram como chiclete. De sua virilha, veio uma sensação de calor e de umidade, seguida de alívio profundo. Estava mijando, finalmente.

                    A sensação de mergulhar transformou-se em ausência de peso. Seus braços e pernas flutuaram, como se tivessem perdido a consistência. Objetos pela cabine flutuavam, também – malas, cobertores, notebooks, copos plásticos. Pairando no ar, como em um filme de ficção científica. Marinho lembrou que era assim que se simulava gravidade zero, para treinamento de astronautas: subindo com um avião até dezenas de quilômetros de altura e deixando-o cair.

                    O aviso luminoso do banheiro estava verde, a porta aberta. O corpo de uma mulher flutuou para fora, a coluna dobrada para trás, no meio das costas, em um ângulo reto. O rosto e a cabeça ensanguentados, deixando filetes negros como tinta de caneta, pairando no ar atrás de si.

                    As luzes tremeluziram e apagaram. Marinho deu um gemido choroso dentro da máscara. Sentiu algo tocar-lhe a mão esquerda e, na penumbra, viu uma pequena mão escura segurando a sua, muito branca. Alberto, que havia colocado a própria máscara, sem precisar de ajuda, encarava-o com olhos marejados, cheios de tristeza e compreensão. Olhando em seus olhos, Marinho segurou a mãozinha forte. A mãozinha respondeu.

                    A luz azul sumiu e a penumbra virou escuridão. A sensação da mão se desvaneceu e, depois, os pensamentos.

***

 

 

 

                    Marinho abriu os olhos e viu, na tela da poltrona à sua frente, um mapa. Um avião branco, vindo de uma América do Sul verde, cruzava um Atlântico azul, deixando uma linha vermelha atrás de si.

                    Marinho olhou ao redor, intrigado. O garoto espiava pela janela, são e salvo, tranquilo como um grilo. Da escuridão lá fora, vinha o ruído surdo das turbinas – aquele roncar onipresente que não se escuta, depois de algumas horas de voo.

                    As máscaras haviam sumido, inclusive a de Marinho. A cabine estava na penumbra, a não ser por luzes de leitura, aqui e ali, ou pelo brilho azulado de alguma tela. No fim do corredor, o aviso luminoso vermelho indicava que o sanitário estava ocupado.

                    Tudo parecia na mais perfeita ordem.

                    A única explicação cabível – Marinho pensou, um tanto envergonhado – era que desmaiara. Perdera os sentidos e não vira o piloto fazendo alguma manobra inacreditável e salvando o dia. As máscaras haviam sido recolhidas e as malas, devolvidas a seus compartimentos. Os passageiros do Voo 7024 seguiam, lindos e belos, rumo a Portugal.

                    Bom, nem todos. Uma mulher tinha se machucado feio no banheiro, não tinha? Marinho só lembrava do rosto ensanguentado. Talvez, não tivesse sido tão sério quanto imaginara. Um pequeno corte na cabeça podia sangrar muito.

                    Talvez o garoto tivesse visto algo? Marinho abriu a boca para perguntar, mas hesitou: como era mesmo seu nome? Roberto? Humberto?

                    Baixou os olhos e encontrou o livro sobre suas pernas, aberto na página 48. Estranho. Tinha uma memória vaga de tê-lo perdido.

 

                    E por que achava estranho que sua calça estivesse seca? Não sabia – apenas tinha uma ideia persistente de que ela não deveria estar.

                    Melhor ler seu livro. Que estava interessante, mas no qual não conseguia avançar. Leu a primeira frase em que seus olhos caíram:


                     

“Há algo que nos mantém no lugar onde nos encontramos. Eu acho que essa é a coisa mais terrível de todas.”

                    Ele olhou as letras na página sem vê-las. Havia algum significado medonho naquelas palavras, mas ele lhe escapava, como um daqueles sonhos da fronteira entre a vigília e o sono.

                    Da sua esquerda, veio a voz:

                    — O que será que acontece com as pessoas que morrem no mar?

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