• Jorge Alexandre Moreira

Tubarões e o Verão em que Tentei Surfar

O surfista disse que não sentiu dor.


Ele estava deitado sobre a prancha, remando calmamente, posicionando-se para pegar uma última onda e sair do mar.


O sol se punha, a água estava morna. Ao longe, depois da faixa de areia, os prédios de Boa Viagem, Recife.


No meio do movimento, ele sentiu uma pressão forte, como se alguém tivesse fechado uma porta em seu braço. Olhou para o braço e descobriu que ele, agora, acabava centímetros abaixo do cotovelo. Sangue jorrava para a água.


Horror. Como ele nunca imaginara que pudesse existir.


Ele remou alucinadamente, usando o toco do braço, tingindo a água a seu redor de vermelho, olhos arregalados, boca escancarada, cabeça a milhão.


O tubarão voltou, atraído pelo sangue. Mordeu no mesmo lugar, levando até a metade do braço.


De alguma forma, o surfista chegou à margem. Visão já turva, corpo gelado, pessoas gritando ao redor. Desabou na areia. Alguém fez um torniquete e salvou sua vida. Uma ambulância chegou. Só na hora em que estava sendo levado para ela, ele começou a sentir dor.


Essa história ocorreu lá pelo meio da década de 90, quando as pessoas ainda arriscavam entrar nas águas verdes e turvas da Praia de Boa Viagem. Na época, eu tive um rápido romance com uma prima do surfista, o que me permitiu ouvir o relato em primeira mão.


Sempre tive medo do mar. Talassofobia é o nome, que eu nem sabia que existia, até pouco tempo atrás. Fiquei feliz em saber que havia um nome.


É bom saber que sua loucura não é tão rara assim. E já que o assunto é loucura, fiquei feliz, também - obrigado, redes sociais - quando descobri outras pessoas tinham medo de tubarão na piscina, quando crianças. Eu tinha e, mesmo me achando um imbecil, não conseguia deixar de sentir.


O famigerado tubarão de piscina ficou na infância, mas, até hoje, no mar, fico tenso assim que o fundo desaparece sob meus pés. Não chega a ser pavor. Às vezes, nado, mergulho de snorkel. Ao contrário de Laura Bonetto - a protagonista talassofóbica de meu último livro, Numezu - até pulo de barcos no mar.


Mas nunca estou confortável. É algo que me forço a fazer, pois esses medos que você não entende nem controla são coisinhas incapacitantes lá no meio da sua cabeça que vêm te assombrar nos momentos mais impróprios. Você tem direito de tê-los, mas é bom cutucá-los de vez em quando e não deixá-los dominar, pois eles têm todo tipo de repercussão no na sua vida, mesmo que você não perceba.


Por tudo isso, certo verão, acredite se quiser, tentei surfar.


Não foi só para enfrentar o medo, havia muita vontade de conhecer a sensação, surfar estava na lista de coisas que eu tinha que fazer antes de morrer. Mas houve um catalisador: um amigo pediu para eu trazer sua prancha para o Rio em meu carro, ao fim de uma viagem de férias. E nunca mais foi pegá-la.


Meses passavam e aquela prancha na cozinha, encostada na parede. Todo mundo que ia à minha casa perguntava se eu pegava onda. Eu dizia que não, que a prancha era de um amigo. Aqueles que entendiam do assunto diziam que era uma prancha boa para iniciantes - uma funboard - e que eu deveria tentar. Quase um ano depois, segui os conselhos.


Duas vezes por semana, antes do trabalho, eu frequentava um cursinho de surf na Praia do Arpoador. Fiz umas dez aulas. Comecei a entender como se remava, como se furava onda e como se ficava em pé na prancha.


Essa última parte era particularmente difícil. Durante todo esse verão, no qual fui muitas vezes à praia, devo ter ficado em pé na prancha, no máximo, seis ou sete vezes. Foi em ondas pequeníssimas e desci totalmente reto, mas a sensação de ficar em pé na prancha e deslizar com a onda é uma das coisas mais interessantes que já fiz na vida. Quando eu conseguia, passava horas sorrindo. Três meses acordando de madrugada para ir à praia antes do trabalho ou correndo, depois da saída, para pegar o finzinho do dia, mas valeu muito a pena. Se você não tem nenhum impedimento físico e tem vontade de viver a experiência, te recomendo demais.


Uma coisa interessante sobre o esporte tinha a ver com meu medo de tubarões. Sempre que eu comentava com meus amigos surfistas que não teria coragem de ficar lá, no fundo, por horas, com as perninhas balançando sobre o vazio onde nadava sabe-se lá o que, eles sempre diziam que, quando você surfa, tem tanta coisa para pensar que não tem tempo para ter medo.


Para minha surpresa, isso era totalmente verdadeiro. Eu quase nunca tinha oportunidade de relaxar. Estava sempre remando, tentando me posicionar, tentando não tomar a próxima onda na cabeça. Quando vinham as pausas, normalmente eu estava tão cansado que o medo não vinha, também.


Até um dia fatídico, no final do verão.


Era meio de semana e Amadeu - o amigo cuja prancha eu usava - me chamou para ir à Praia da Reserva. Localizada em uma reserva ambiental entre a Barra e o Recreio, essa praia é vazia e boa para quem está aprendendo a surfar. Mas também ficava longe.


Eu tinha adaptado um suporte para prancha na moto, o que aumentou minha eficiência de deslocamento - assim como meus riscos.


Eu saía do trabalho às 18h, cortando pelo trânsito demoníaco igual a um alucinado, com uma prancha acoplada na lateral da moto.


No horário de verão, anoitecia às 20h. Cheguei na Praia da Reserva perto das 19h e encontrei Amadeu na areia. A Oeste, o céu alaranjava. A leste, escurecia. O mar estava calmo, ondulações pequenas bem espaçadas. Exatamente o que queríamos. Entramos na água, subimos nas pranchas - Amadeu tinha outra. Começamos a remar.


Esse foi um dia peculiar, por vários motivos. Primeiro, pelo lugar. A vida marinha na região da Reserva é abundante. Peixes grandes, toda a cadeia alimentar muito bem representada. Não muito longe dali, em um restaurante onde eu comia às vezes, há um mural com antigas fotos de pescarias. Há fotos de tartarugas do tamanho de homens. De um espinhel com vários pequenos tubarões. E uma, amarelada, de um tubarão branco esparramado na areia, ao comprido. Atrás dele, lado a lado, para mostrar seu tamanho, oito homens, com os ombros encostados.


Outra coisa diferente nesse dia era quão fundo estávamos. As ondas estavam quebrando longe. Estávamos, pelo menos, a uns cem metros da margem.


Ficamos lá, sentados nas pranchas, de costas para a areia, aguardando as ondas. Elas vinham tão espaçadas que foi uma das raras vezes que tive tempo de pensar. Lembrei de um livro sobre o mar, cheio de fotos, que devo ter lido setecentas vezes na infância. Havia um capítulo só sobre tubarões e uma lista de dez dicas para evitar ataques.


Ainda lembro de algumas:


* "evite o amanhecer e o entardecer, quando os tubarões estão mais ativos"

* "não nade em águas escuras"

* "não vá muito para o fundo, isolando-se dos outros banhistas."


Olhei para os lados. Não éramos os que estavam mais fundo, éramos os únicos. Por centenas de metros, de um lado e de outro, ninguém. Eu estava quase fazendo um bingo com as recomendações do livro.


Então, ao tentar descer uma onda, caí. A quilha bateu na minha mão, abrindo um corte. Não era grave, mas não parava de sangrar.


* "Não entre na água se estiver sangrando."


Bingo.


Eu estava ficando preocupado - mesmo - mas tentei focar no surf. Eu não tinha enfrentado 50 minutos de moto pilotando como um kamikaze para sair da água com medinho. Nesse momento, preciso fazer uma pausa, para contextualizar: Amadeu é um amigo velho de guerra com quem já vivi poucas e boas. Já estivemos em lugares estranhos cheios de gente perigosa. Já estivemos em escaladas sérias, onde uma queda queria dizer fraturas ou coisa pior. E eu nunca o tinha visto demonstrar medo. Claro que ele sentia, como todos nós, mas nunca demonstrava.

Volta para a Praia da Reserva.

Lá estou eu, sentado na prancha, olhando para as ondas, tentando controlar o desconforto quando, do lado, Amadeu grita algo. Só escuto o final:

— ... grande!

— O que? - pergunto, virando-me para ele.

E Amadeu, o homem que eu nunca tinha visto demonstrar medo, está sobre a prancha, remando como um alucinado, olhos do tamanho de pires.

— BATI O PÉ NUMA COISA MUITO GRANDE!

Não sei que cara eu fiz. Imagine a expressão de medo mais abissal que você consiga conceber - provavelmente, será algo próximo da verdade.

Deitei na prancha, tentando não virar - o que acontecia com frequência - e comecei a remar. É incrível como certas histórias grudam na cabeça, não é mesmo? A gente tenta lembrar do que comeu ontem e não consegue, mas aquele caso que nos contaram, 20 anos atrás, continua lá, vívido como se fosse ontem.

Adivinhe que história me veio à mente enquanto eu remava para a areia - longe, tão longe - com aquela mão que não parava de sangrar?

Eu já mencionei que Amadeu remava mais rápido que eu?

Meus braços queimavam, meus pulmões gritavam, mas em nenhum momento parei de remar. Ou por desinteresse do tubarão, ou porque ele era não era um, chegamos à areia com todas as nossas partes.

Ficamos ali, ofegantes, olhando para nossas caras apavoradas.

Amadeu disse que tinha batido com o pé em algo que estava passando por baixo dele. Não conseguiu ver o que era, mas sentiu o peso. Grande, encorpado.

Essa não foi a última vez que peguei onda, mas foi quase.

Não foi tanto o medo das criaturas do mar que encerrou minha promissora carreira no surf, mas, principalmente, o fato de dar muito trabalho e de eu precisar comprar uma prancha mais adequada para o meu peso, mais grossa, o que me pareceu muito investimento, naquela hora.

Ainda assim, talvez, eu faça isso um dia. Pois aquelas seis ou sete vezes que fiquei em pé na prancha e desci a onda reto, igual a um boneco de madeira, valeram cada minuto de esforço.

Você tem medo do mar? Laura, a protagonista de Numezu, também. E isso vai ser um problema, pois ela está isolada em um veleiro com um marido que está enlouquecendo.


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